SERMÃO DE NATAL (texto completo)

Por Pr. Paulo Nascimento
Na última sexta-feira (dia 23) eu estava em casa, à noite, vendo um musical realizado por Sting, na cidade de Durham, Inglaterra (Sting é o vocalista da famosa banda inglesa de rock The Police). Sting cantava músicas com temas natalinos. Dava pra ver que o local se tratava de uma antiga catedral. Já faz tempo que algumas catedrais inglesas não servem apenas à religião. Agora elas servem também aos shows musicais. O Pr. Wellington nos interrogou muito nesses dias sobre o que seria “o verdadeiro sentido do Natal”, e o show de Sting, com músicas natalinas dentro daquela catedral, me fez pensar nisso.
Me peguei recordando as palavras do prof. Cícero Albuquerque que nós ouvimos na última terça-feira, na praça Sinimbu. Ele dizia que nesse período do ano temos verdadeiros “espetáculos de solidariedade”. É verdade. Guy Debord dizia que vivemos em uma “sociedade do espetáculo”. No fim do ano, muito mais! O Natal tem essa capacidade de fazer girar em torno de si uma infinidade de espetáculos. Talvez por que o mercado precise de espetáculos para lucrar mais.
Não vou negar: não gosto de ficar alimentando aquela polêmica comum em muitas igrejas – o Natal é bíblico? Jesus nasceu em 25 de dezembro mesmo? Todo mundo já sabe que a festa de Natal é fruto da cultura européia, assimilada pelo Cristianismo. De acordo com Frei Betto, “até o século 3, o nascimento de Jesus era celebrado no dia 6 de janeiro. No século seguinte mudou, em muitos países, para 25 de dezembro, dia do solstício de inverno no hemisfério Norte, segundo o calendário Juliano”.
O que os polêmicos de plantão esquecem é o que pelo menos três dos Evangelhos dão enorme importância ao nascimento de Jesus. Mateus nos dá detalhes sobre seu nascimento, narrando como Herodes quis matar o Cristo, e sobre a fuga da família de Jesus para o Egito. Lucas oferece ainda maiores detalhes do nascimento do Messias. Fala-nos da visita de Gabriel a Maria a fim de anunciar-lhe o nascimento do Salvador, da visita dos pastores ao menino Jesus, e de seus primeiros anos de vida. João, embora não dê detalhes históricos do nascimento de Jesus, oferece uma belíssima meditação sobre a encarnação do Verbo de Deus, resumida na declaração: “o Verbo se fez carne, e armou sua tenda entre nós, cheio de graça e verdade, e vimos a sua glória como do unigênito do Pai” (1,14).
Meus irmãos e irmãs, nosso Salvador nasceu, e por isso hoje temos esperança. Nosso Salvador nasceu, e por isso nossa vida já não é mais a mesma de antes. Nosso Salvador nasceu, e por isso, nós, que antes nem éramos povo, hoje somos chamados “povo de Deus”. Nosso Salvador nasceu, e por isso é que hoje somos uma família, membros de um só corpo. Nosso Salvador nasceu, e é por isso que hoje temos essa comunidade tão especial chamada IBP, que nos ajuda em nossa caminhada. Por tudo isso, devemos repetir: “glória a Deus nas alturas, e paz na terra às pessoas de boa vontade” (Lucas 2,14).
O que estamos fazendo aqui hoje? Celebrando o Natal? Sim! Mas não como uma festa do calendário religioso do Ocidente. Nós estamos celebrando hoje uma experiência de todo dia, uma experiência que temos vivenciado o ano todo.
Porque Natal, em primeiro lugar, é todo dia em que Deus for encontrado na humildade dos pobres. Seja em 25 de dezembro, ou 25 de março, ou 25 de agosto. O Emanuel – Deus conosco, o Deus Forte, Conselheiro, Pai da Eternidade e Príncipe da Paz – nasceu pobre, viveu como pobre, entre os pobres e para os pobres. Não tendo lugar para nascer, nasceu em uma estrebaria, junto com os animais. Deixem-me contar-lhes uma historinha que li nesses dias, de Leonardo Boff (viu Vando!).
Leonardo Boff atribui essa história a Lutero. Ele a conta assim:
Era uma vez um homem muito piedoso. Ele queria já neste mundo chegar ao céu. Por isso se empenhava em fazer mais e mais obras de piedade, de caridade e de humildade. Assim chegou, enfim, ao alto da escada da perfeição. Num certo dia, depois de grande devoção, subiu tanto que sua cabeça penetrou no céu.
Olhou em volta e ficou muito decepcionado.
Pois o céu estava escuro, vazio e frio.
É que Deus estava na Terra, numa manjedoura, tiritando de frio e no meio de animais.
E Boff completa:
Lição da história: devemos buscar Deus lá onde Ele verdadeiramente está, no meio dos pequenos, dos pobres e dos invisíveis. É onde ele está, lá é o céu, mesmo que seja num estábulo, de noite e no frio junto com animais.
No mês de junho deste ano, eu e o Pr. Wellington tivemos uma experiência natalina em uma escola da cidade de Jacuípe. Encontramos Deus em uma senhora idosa, desabrigada pelas enchentes desse ano, vivendo em condições subumanas, junto com outras tantas famílias daquela cidade. Nosso Natal começou dentro das barracas de lona esquecidas pelo estado, que abrigam as famílias atingidas pelas enchentes. Nessa semana, na terça-feira, nosso Natal aconteceu na praça Sinimbu, junto com as 11 famílias “sem terra” despejadas do campo pelo governo do estado, e instaladas desde então naquela praça. Não teve chester nem peru. Mas teve galinha velha e feijão tropeiro, feitos por irmãos que querem um pedacinho de terra para viver e trabalhar, mas que há 11 meses vivem em barracas improvisadas, entregues à sorte. E antes de ontem, nosso Natal aconteceu na Vila Emater, junto com centenas de crianças daquela localidade. Natal é todo dia em que Deus é encontrado no meio dos pobres.
Em segundo lugar, Natal é todo dia em que Deus é achado onde ninguém vê. Meus irmãos, naquela noite em Belém, se se perguntasse pelo Salvador, as pessoas certamente diriam: procure na sinagoga, procure em um templo ou num palácio. Quem suspeitaria que o Salvador poderia ser achado no lugar onde nasceu? Natal é toda vez que a gente acha Deus nas pessoas e nos lugares mais suspeitos desse mundo. Quero lhes contar outra estorinha. Na verdade, um pedaço de estória contada esses dias por Frei Betto. Ele diz que Jesus voltou à terra em dezembro do ano passado. Escute com atenção:
Sem chamar a atenção, Jesus voltou à Terra em dezembro de 2010. Veio na pessoa de um catador de material reciclável, morador de rua. Comia prato feito preparado por vendedores ambulantes ou sobras que, pelas portas do fundo, os restaurantes lhe ofereciam.
Jesus chegou a uma praça semiescura. Havia ali uma mulher excessivamente maquiada. Buscou um banco e ali se instalou para poder comer. A mulher se aproximou:
- Ei, cara, tem o que aí?
- Pão, salame e refrigerante.
- Não comi nada hoje. E a noite tá fraca. Faz duas horas que estou aqui e nada de freguês. Acho que em noite de Natal os caras ficam com culpa de pegar mulher na rua.
Jesus preparou o sanduíche e ofereceu-o à mulher, e disse:
- Se não importa de beber no mesmo gargalo...
- Tenho lá nojo de alguma coisa? – murmurou a mulher. 
- Se tivesse, não estaria rodando a bolsinha na rua.- Você não tem família?(Jesus)
- Tenho, lá na roça. Larguei aquela miséria pra tentar uma vida melhor aqui na cidade. Como não fui pra escola, o jeito é alugar meu corpo.
- Esta noite de Natal não significa nada pra você?(Jesus)
- Cara, você não imagina o que já chorei hoje lá na pensão. A gente era pobre, mas toda noite de Natal minha mãe matava um frango e, antes de comer, a família rezava um terço e cantava Noite feliz. Aquilo me deixava muito feliz. Não posso relembrar que as lágrimas logo inundam os olhos – disse ela, puxando o lenço de dentro da bolsa.
A mulher fez uma pausa para enxugar as lágrimas e indagou:
- Acha que, se Jesus voltasse hoje, esse mundo iria melhorar?
- Não sei... O que você acha?
- Acho que ninguém ia dar importância a ele. Essa gente só quer saber de festa, e não de fé. Mas bem que ele podia voltar. Quem sabe esse mundo arrevesado tomava jeito.
- Eu não gostaria que ele voltasse. Não adiantaria nada. Há dois mil anos ele veio e deixou seus ensinamentos. Uns seguem, outros não. Se o mundo está desse jeito, a ponto de eu ter que catar lixo e você alugar o corpo, a culpa é nossa, que não damos importância ao que ele ensinou. Veja, hoje é noite de Natal. Jesus renasce para quem?
- No meu coração, ele renasce todos os dias. Gosto muito de orar, não faço mal a ninguém, ajudo a quem posso. Mas, sabe de uma coisa? Eu gostaria de poder falar com Jesus, assim como nós dois estamos conversando aqui.
- E o que diria a ele?
- Bem, eu perguntaria se ser prostituta é pecado. Já vi um padre dizer que sim, e ouvi outro falar que não. O que você acha?
- Acho que Deus é mais mãe do que pai. E lembro que Jesus disse um dia aos fariseus que as prostitutas iriam entrar no céu primeiro que eles.

Nem precisa comentar.
Em terceiro lugar, Natal é todo dia em que nossa religião perde a seriedade dos adultos, e ganha a leveza das crianças. Como alguém disse semana, Deus entrou na História como uma criança, uma simples criança judia. Natal é toda vez que a gente olha o mundo com os olhos de uma criança (e conforme o Pr. Wellington na semana de oração), quando a gente “julga os outros” com o mesmo rigor das crianças. Nossas igrejas são sérias demais em julgar os outros. Deveríamos cultivar a leveza mais do que a doutrina. A brincadeira mais do que o dogma. O perdão mais do que a disciplina. Lembrei de um poema de Fernando Pessoa chamado “O guardador de rebanhos”.
Vou ler apenas pequenos trechos da Parte VIII. Recomendo que vocês o procurem e o leiam inteiro:
Num meio-dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia
Vi Jesus Cristo descer à terra,
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu,
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras,
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três,
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.
E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.
Esta é a história do meu Menino Jesus,
Por que razão que se perceba
Não há de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?
 
Quando eu era criança, meu pai fazia questão de dar belos presentes a mim e a meu irmão mais novo. Nossa casa, no recôncavo da Bahia, ficava toda enfeitada no Natal. A árvore de Natal era feita com um graveto seco, enrolado em algodão, com aquelas tradicionais bolas que quebram com um sopro (quem aqui teve uma igual?). Engraçado, nunca nos questionamos como era possível uma árvore nevada no nordeste brasileiro! Em uma manhã de Natal, e meu irmão acordamos cedo e lá ao pé da árvore estavam duas carretas de brinquedo enormes. Tinha motorista dentro, amortecedores, pneus de borracha, lugar pra pôr gasolina, etc. A minha era a vermelha, a do meu irmão era azul. Digo isso porque éramos uma família pobre, e agora eu sei que aquelas carretas haviam custado muito caro. Ficamos doidos de felicidade! Saímos correndo em nossa rua mostrando aos amigos aquele maravilhoso presente trazido por Papai Osmundo Noel.
Meus irmãos, nossa religião deveria ser assim: ao invés de ser feita de gente que vive julgando e perseguindo os outros, nossa religião deveria consistir em gente embriagada de alegria (como aqueles meninos do recôncavo), falando ao mundo sobre a beleza da salvação em Cristo Jesus, o maior presente que Deus nos deu.
Por último, Natal é toda vez que nosso coração torna-se tão simples como uma manjedoura, a ponto de acolher o Salvador. É por isso que hoje, para nossa comunidade, não é dia de celebrar um feriado do calendário. O Natal na IBP tem sido o ano todo, em nossa busca por “profundidade e simplicidade na vida comunitária”. 
Terminando, volto àquela coisa de saber o que é o verdadeiro Natal. E eu não ia terminar esse sermão sem citar as coisas do Face Book, não é? André Bigode: “se o Natal é verdadeiro, há de ser o ano inteiro”. Ascânio Júnior: “que o Natal nordestino aconteça o ano inteiro, com amor, bom senso e justiça”.
Amem !!! 

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